O sistema ayurveda e a alimentação viva

Ayurveda, significa em sânscrito, Ciência (veda) da vida (ayur). Trata-se de um sistema de tratamento terapêutico desenvolvido na Índia há cerca de sete mil anos, o que faz do Ayurveda um dos mais antigos sistemas medicinais da humanidade.

O Ayurveda, como ciência integral, considera que a doença inicia-se muito antes de chegar à fase em que pode finalmente ser percebida. Assim, pequenos desequilíbrios tendem a aumentar com o passar do tempo e, se não forem corrigidos, originam a enfermidade muito antes de podermos percebê-la.

O Ayurveda baseia-se nos cinco elementos básicos da criação – ar, água, fogo, terra e éter (espaço) – que cria toda a matéria existente no Universo, inclusive o corpo humano. O corpo humano, por sua vez, também é formado por buddhi – discernimento, ahamkara – ego e manas – mente. De acordo com o Ayurveda, quando algum dos cinco elementos está em desequilíbrio no corpo do indivíduo, inicia-se o processo da doença, que pode variar de um sentimento sutil de desarmonia no complexo corpo-mente à manifestação das mais diversas patologias.

De acordo com o Ayurveda, os cinco elementos – ar, água, fogo, terra e éter – manifestam-se no complexo psicossomático humano como as três essências doshas: Vata, Pitta e Kapha. Todos os seres nascem com uma combinação constitucional única dos três doshas. A palavra dosha significa aquilo que é tirado do equilíbrio. Quando uma pessoa é descrita como sendo de uma constituição específica de determinado dosha, significa que aquele é o dosha que mais facilmente se desequilibra naquela pessoa.

Segundo o Ayurveda, existem sete tipos básicos constitucionais: Vata, Pitta, Kapha, Vata-Pitta, Pitta-Kapha, Kapha-Vata e Kapha-Vata-Pitta, com variações sutis dos diferentes tipos constitucionais.

De acordo com o Dr. Gabriel Cousens, “ter uma idéia de qual é o nosso tipo constitucional nos ajuda a fazer escolhas sobre os alimentos que comemos, quando comemos e como mudar a alimentação conforme as estações climáticas”.

O dosha Vata é formado por dois dos cinco elementos: ar e éter. É o princípio do movimento do corpo e regula a respiração, o músculo cardíaco, todos os movimentos biológicos e intra- e extracelulares, inclusive os impulsos nervosos.

O dosha Pitta é formado pelos elementos fogo e água. Pitta é percebido como a energia de calor do corpo e governa o metabolismo: digestão, assimilação e temperatura.

O dosha Kapha é formado pelos elementos terra e água. Kapha governa a força biológica, o vigor, a estabilidade e a resistência natural dos tecidos. Lubrifica as articulações, umedece a pele, dá energia aos pulmões e ao coração, ajuda a curar ferimentos e preenche os espaços do corpo.

No capítulo “Revelações Ayurvédicas da Alimentação Viva”, o Dr. Gabriel Cousens aponta a necessidade de desenvolvermos uma compreensão dos níveis sutis dos três doshas, Vatta, Pitta e Kapha. Os níveis sutis dos três doshas são as essências vitais de cada dosha: para Vatta é Prana; para Pitta é Tejas; e para Kapha é Ojas. As essências vitais são energias mais conectadas aos corpos sutis e causais.

Prana é a energia sutil do ar e do éter e é considerada a energia da força vital básica da vida. Está relacionado, basicamente, com a respiração e coordenação dos sentidos e da mente. Os alimentos vivos, não adulterados e consumidos in natura, contém um alto nível de prana, preservado pelo não cozimento. No dizer do Dr. Gabriel Cousens os tipos constituitivos Vatta obtém sucesso com a alimentação viva, equilibrando a dieta com leites de sementes e castanhas, e fazendo uso de alimentos  tais como abacate, frutas vermelhas e gojis, entre outros. Pessoalmente falando, sou um tipo Vatta-Pitta e faço uso de todos esses alimentos mencionados, incluso pólen desidratado a baixa temperatura e extraído com consciência por apicultor artesanal. Pólen comercial desidratado a altas temperaturas perde muito o valor nutritivo e terapêutico.

Tejas é a energia sutil do fogo. No corpo humano está presente, principalmente, nos líquidos digestivos. Para o sistema Ayurveda, a saúde de um indivíduo é, em grande parte, medida pela força do seu agni (fogo digestivo). Um “bom agni” é capaz de extrair dos alimentos ingeridos os nutrientes necessários para formar tecidos fortes; por outro lado, quando o agni está diminuído ou é irregular (menor capacidade digestiva) a nutrição dos tecidos fica fraca, comprometendo a saúde e a integridade estrutural do organismo. Costuma-se ouvir muito que “você é o que você come”, mas podemos concluir, de acordo com a medicina do Ayurveda, que “você é o que você consegue digerir”. É crucial observar que o Dr. David Frawley, autoridade mundial em Ayurveda, relaciona o elemento fogo às enzimas presentes nos alimentos in natura. A questão que se coloca é: onde o elemento fogo se faz presente nos alimentos? Resposta: nas enzimas que todo alimento in natura contém. Assim, todo alimento cozido, sob a ótica da alimentação viva e do princípio de presevação da vida, perde agni ou, esclarecendo melhor, seu poder inerente de digestibilidade.

Ojas é a energia sutil da água e da terra e está relacionada com o vigor primordial.

Envolve a integridade e a energia armazenada da proteína e da gordura, assim como a massa de tecido saudável. A quantidade de Ojas que um indivíduo tem está diretamente relacionada à resistência fisica e mental dessa pessoa. Ojas, como vigor fundamental, é necessário à manutenção da vida no sistema biológico.  Muitas pessoas sofrem de Ojas exaurido simplesmente porque trabalham demais e não dormem o suficiente. Dormir o suficiente é muito importante para construir Ojas.  Sem dormir o suficiente as pessoas têm significativamente menos serotonina no sistema nervoso, o que pode ser considerado a parte Ojas do sistema neurotransmissor. A serotonina cria uma rede de segurança neuroendócrina contra o estresse, o que é, grosso modo, semelhante ao papel que Ojas desempenha no organismo.

Outro aspecto para se construir Ojas é o que os Yogues chamam de controle dos sentidos (pratyahara). Isto significa evitar a maioria das formas de mídia de massa, principalmente televisão e uso de computador em excesso. Um jejum de TV envolve uma técnica não muito sutil de desligar a TV da tomada. Essa é uma das melhores atitudes que podemos ter para construir Ojas. A TV está recheada de atividades que se movem para fora e, segundo o Dr. Gabriel Cousens, isso é um dos principais geradores de medo e ansiedade. Por causa disso, a TV, assim como as drogas que estimulam a adrenalina, queimam Ojas. O uso excessivo do que chamamos de órgãos motores, por exemplo o excesso de falar, também exaure  Ojas.  O Dr. Gabriel Cousens indica como alimentos construtores de Ojas, o pólen da abelha, a spirulina e a polpa de côco verde. São, ademais, excelentes alimentos para utilizarmos nos shakes (green smoothies). De fato, os alimentos oleosos e cremosos, tais como os shakes e smoothies, são bons para construir Ojas. Alimento oleoso, em se tratando de alimentação viva, significa sementes oleaginosas, tais como linhaça, gergelim e girassol, hidratadas e preparadas sem processamentos artificiais.

Só nos cabe neste ponto indagar: o alimento que ingerimos afeta o nosso campo mental? Ou tudo se resume à questão meramente orgânica? Sob o aspecto do funcionamento da mente, o Dr. David Frawley, autoridade mundialmente reconhecida no campo da medicina Ayurveda e autor do livro “Uma visão ayurvédica da mente”, afirma:

“O alimento que ingerimos não afeta apenas o nosso corpo, mas também a mente como um todo. A qualidade desses alimentos determina a qualidade da nossa consciência. (…) Se quisermos abrandar nossas emoções e aguçar nossa consciência, não podemos ignorar os alimentos que comemos, tampouco nossos hábitos alimentares. O regime alimentar é uma das terapias mais importantes no Ayurveda. De fato, o tratamento ayurvédico principia com o regime alimentar correto. Afinal, o corpo físico é constituído pelo alimento que compõe os tecidos.”

Assim David Frawley expõe, com a autoridade de quem conhece profundamente o assunto:

“Os desequilíbrios psicológicos estão estritamente relacionados com as condições do Prana, do Tejas e do Ojas. Prana é responsável pelo entusiasmo e pela expressão na psique, sem o que sofremos de depressão e de estagnação mental. Tejas rege a assimilação e a absorção da mente, e sem ele nos falta lucidez e determinação. Ojas fornece estabilidade psicológica e resistência; sem ele, temos angústia e fadiga mental. Sem as energias vitais apropriadas, a mente não pode funcionar de modo satisfatório. Não a podemos curar sem melhorar e harmonizar suas energias.”

Ojas é a energia sutil da água e da terra e está relacionada com o vigor primordial.

Ainda segundo o Dr. David Frawley, durante o processo da alimentação, nossa força vital e nossa mente se tornam vulneráveis e expostas a influências do ambiente. Comendo, tornamo-nos alvo de impressões e sentimentos do mundo que nos cerca. Somos muito influenciados pelas pessoas enquanto nos alimentamos em sua companhia, especialmente em encontros sociais, como num restaurante. Não somos apenas o que comemos, mas também absorvemos algo das pessoas com quem comemos, bem como do lugar onde fazemos isso. Resumindo, nossas impressões mentais enquanto nos alimentamos têm o poder de influenciar a digestão, sendo este o motivo para evitarmos ingerir alimentos quando estamos fortemente influenciados por emoções densas, como raiva, preocupação excessiva, tensão emocional forte, etc. Tais alimentos ingeridos sob forte emoção mental, ainda que saudáveis, não serão bem digeridos.

Com relação à possibilidade de uma dieta individualizada de alimentos vivos, que considere os princípios Ayurvédicos expostos até aqui, é necessário passar por uma consulta com um profissional que detenha o conhecimento necessário para diagnosticar nosso 'tipo metabólico'. O tipo metabólico, por sua vez, está estreitamente relacionado à 'taxa de oxidação', ou seja, à capacidade do organismo em queimar gorduras. A taxa de oxidação de um indivíduo pode ser lenta ou rápida e, segundo o Dr. Gabriel Cousens, determina a necessidade de ingestão protéica daquele indivíduo. Assim, são diversos os fatores que influenciam no mapeamento da dieta ideal para determinada individualidade bioquímica, o que torna necessário consultar um especialista apto a diagnosticar o tipo metabólico e com isso estabelecer uma dieta que se aproxime do ideal, fazendo ajustes quando necessário.

A seleção dos alimentos mais favoráveis à nossa constituição física levará em conta os sabores dos alimentos, ou seja, a que grupo pertencem, segundo o sistema medicinal Ayurveda, que estabelece seis sabores: Doce, Azedo, Salgado, Picante, Amargo e Adstringente. Uma refeição bem balanceada, para o sistema Ayurveda, deve conter todos os seis sabores, pois os seis juntos geram uma energia harmônica e um equilíbrio de nutrientes. Uma explicação detalhada dos seis sabores e do como eles influenciam os doshas pode ser encontrada no livro “Nutrição Evolutiva”,  no capítulo “O Sistema Ayurvédico Tridosha”  do Dr. Gabriel Cousens.

É ainda interessante notar que os grandes Mahasiddas da Índia antiga elegiam como seu alimento principal, ervas e frutos não cultivados, por reconhecer que tais alimentos são os mais bem dotados de energia vital e melhores condutores de Prana, sendo por isso, digeridos com mais facilidade pelo organismo que os absorve sem onerar o metabolismo. Pessoalmente, já comprovei tal assertiva ao ingerir folhas verdes plantadas no quintal sem defensivos, colhidas na hora e ingeridas imediatamente após extrair seu sumo. Ainda que não possam ser consideradas “selvagens”, contém mais elementos nutritivos do que os produtos que normalmente compramos nos hortifruti comerciais.

 

Autora: Carmen Gontijo

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